sexta-feira, 9 de julho de 2010

ainda Mário

"Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado."

Mário Quintana

"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..."

terça-feira, 6 de julho de 2010

Poetas - Florbela Espanca

Ai almas dos poetas
Não as entende ninguém,
São almas de violeta
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!

Vaidade - Florbela Espanca

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

Fanatismo - Florbela Espanca

Minhálma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és se quer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio do Fim!..."

domingo, 27 de junho de 2010

Rêveuse

Cabelos ruivos. Pele clara. Menina de 8 anos. Se perde em pensamentos como dentes-de-leão se desmancham ao vento. Tem um olhar inquieto e ao mesmo tempo fixo. Fixa em um ponto ainda não encontrado. Olhar curioso, misterioso, e doce. Doce como o algodão-doce que segura. E enquanto aprecia aquela nuvem rosa e cheia de açúcar, parece procurar algo no horizonte. Algo como um pote de ouro além do arco-íris. Sobe em sua bicicleta. E pedala. Pedala em círculos admirando o céu. Pedala e pedala. E cresce. Seus pensamentos são agora mais invasores e inquietantes. Continua curiosa, misteriosa, e doce. Ainda determinada a encontrar aquilo que nem sabe ao certo por que procura. Só sabe que reconhecerá quando vier. Será aquilo que fará bem. E somente o Bem. Talvez não mais um pote de ouro. Mas também algo além do arco-íris – pois sim, mágico -. Eis que é chegado o tão desejado e aguardado dia do encontro com o tal tesouro. Nem o maior léxico de palavras consegue descrever. Lindo? Mais. Tem um quê de fantasia. De algo que não é possível ser real. Chamou-o de sonho. Alguns chamam de amor.

Madrugada, nosso lar

Submersa em ti
Na madrugada, poeta pareço
E já é tarde, ou quase cedo
Sonho e nem mesmo dormi